05/06/2017 Doramas Desconstruídos – Weightlifting Fairy Kim Bok Joo

Ultimamente eu tenho assistido muitas séries coreanas (mais popularmente conhecidas como doramas ou K-Dramas) e como sou mulher, feminista, e tenho algum bom-senso na cabeça, é óbvio que o machismo e o estereótipo de gênero não me passam despercebidos. Por melhores que sejam essas séries (e são mesmo, confiem em mim), algumas delas se destacam pelo avanço positivo em relação ao papel da mulher, enquanto outras insistem com aquela velha fórmula estereotipada, cheia de abuso disfarçado de romance.

Eu não vou ficar fazendo propaganda de série com roteiro ruim (cof* My Secret Romance cof*), então vamos focar naquelas que devem ser apreciadas e comemoradas como marcos numa mudança positiva de mentalidade da Coreia do Sul em relação à mulher.

 

Weightlifting Fairy Kim Bok Joo

Este foi um dos primeiros doramas que assisti e já fui logo presenteada com uma protagonista completamente fora dos padrões. Conta a história da Kim Bok Joo, uma jovem universitária que sonha em sem medalhista de ouro em levantamento de peso, e que batalhou desde muito nova para alcançar esse objetivo, mas acaba se apaixonando por um médico esteticista especializado em emagrecimento saudável e acaba se envolvendo em várias situações hilárias por causa disso.

1) A protagonista não é uma dama em apuros

A Bok Joo não é, nem de longe, uma princesa frágil e delicada em busca do príncipe encantado. Ela é fisicamente forte e bruta (embora a escolha da atriz tenha sido um pouco falha nesse ponto) e tem uma personalidade bem marcante, não se deixando abater por qualquer bobeira e mantendo sempre o foco em seus objetivos.

2) Mas ainda é um ser humano e também enfrenta dificuldades

(Os caras que eu gosto não gostam de mim. Os caras que eu não gosto também não gostam de mim)

Quando ela se apaixona, nós vemos a nossa protagonista forte, determinada e segura de si, tremer nas bases e tentar se encaixar em padrões sociais, num esforço para conquistar o crush. (Porque o amor é essa coisa que deixa a gente meio idiota mesmo, acontece com todo mundo).

3) Família e amigos que não julgam

As decisões da Bok Joo de ser uma atleta nunca foram questionadas. Ninguém tentou convencê-la de que levantamento de peso é “coisa de homem”, ou que ela ficaria “masculinizada” se praticasse esse tipo de esporte. Bok Joo sempre recebeu todo o apoio dos amigos e da família, e ao invés de ridicularizada, é enaltecida como um modelo a ser seguido por todos eles. (Exatamente como a sociedade deveria ser, não é?)

4) O co-protagonista também não é um estereótipo

Joon Hyung é o melhor amigo da Bok Joo (embora eles não se entendam muito bem logo no início) e está muito longe de ser um príncipe encantado. Ele não é rico, não é o melhor aluno da faculdade, fala as verdades na cara, puxa orelha dos amigos quando é necessário, (usa a amiga como escudo pra se proteger) mas está sempre lá para apoiar e ajudar a Bok Joo sempre que ela precisa (inclusive na hora dela conquistar o crush, que, por acaso, é irmão dele)

5) Nenhuma mulher tem obrigação de melhorar os homens

Joon Hyung é do time de natação da universidade, mas tem um trauma de infância que o deixa surdo na hora das competições, o que o faz ser desclassificado sempre. O rapaz chega a considerar a possibilidade de largar a universidade por causa disso, mas algo acontece para mudar essa visão pessimista e dar a ele uma chance de superar seus traumas e tentar vencer as competições. Você acha que foi a Bok Joo que fez isso? Não, não foi. Ele procura um psicólogo. UM PSICÓLOGO. Aquilo que todo homem com probleminhas psicológicos deve fazer, ao invés de ficar esperando que a mulher da vida dele vá mudá-lo com seu amor. ¬¬

6) Nenhuma mulher é sua rival/inimiga

O Joon Hyung tem uma ex-namorada que ainda é obcecada por ele e, por acaso, começa a dividir o quarto com a Bok Joo no dormitório da universidade. Não é preciso dizer que ela morre de ciúmes da amizade da Bok Joo com o Joon Hyung e começa a fazer várias coisas para tentar prejudicá-los, mas quando a Bok Joo descobre isso, ao invés de se voltar contra ela e vê-la como inimiga, tenta compreendê-la e até ajudá-la a superar uma fase ruim que a moça está enfrentando na vida e elas se tornam amigas. Porque mulheres não nasceram para brigar por causa de homem. Aprendam.

7) Comer não é ruim, mas ficar sem comer é

Enquanto nós vemos milhares de doramas retratando a mulher como uma dama delicada, que come pouco, e se preocupa com a balança o tempo todo, em Kim Bok Joo as meninas da equipe de levantamento de peso comem mais do que eu, você, e toda a sua família juntos, e são incentivadas a fazer isso, porque elas fazem muito exercício físico e precisam repor as energias. Por outro lado, algumas meninas de outras modalidades esportivas começam a fazer dietas absurdas para tentar emagrecer e a série deixa muito claro o quanto isso é ruim e prejudicial à saúde, porque elas passam mal e acabam não conseguindo conquistar os objetivos por causa da fraqueza.

8) Tenha orgulho de ser quem você é

(você precisa encontrar um homem que te ame como você é)

Uma das coisas que eu acho mais legais no Joon Hyung, é o quanto ele admira a Bok Joo pelo que ela é, e a incentiva a fazer o mesmo. Quando ela se apaixona pelo seu irmão e começa a tentar se encaixar em padrões de beleza para conquistá-lo, o Hyung é o primeiro a jogar a real de que as pessoas têm que gostar de você pelo que você é, e não pelo que elas esperam que você seja, e que insistir em um relacionamento que não te valoriza de verdade é como escolher conviver com uma doença, ao invés de procurar a cura.

9) Valorize quem se importa contigo de verdade

A Bok Joo tem uma dupla de melhores amigas que são exatamente aquilo que toda amizade deveria ser. Elas se importam umas com as outras, se ajudam, confidenciam e, acima de tudo, estão lá para o que der e vier, mesmo que não estejam próximas fisicamente. Além disso, a Bok Joo se importa muito com o pai, que a apoia em todos os momentos, e com o tio mais novo, que ajudou a criá-la, e jamais deixa de demonstrar o quanto eles são importantes na vida dela.

10) O homem deve ser responsabilizado pelas coisas erradas que faz

Quando a Bok Joo finalmente começa a namorar, e seu namorado tem atitudes que provocam ciúmes nela, ela não sai praguejando contra as outras mulheres como se elas fossem um perigo em potencial. Ela fica com raiva dele, e dá bronca nele, e deixa bem claro para ele que se fizer algo do tipo de novo, ele e somente ele será responsabilizado. Porque é assim que funciona, amores. As outras mulheres não estão em um relacionamento contigo e não têm nenhum acordo onde prometem manter distância do seu namorado (ou da sua namorada). É ele que te namora e ele que precisa respeitá-la e respeitar o relacionamento que ele escolheu ter contigo. Entendemos?

 

Nem tudo são flores desconstruídas.

Infelizmente, Weightlifting Fairy Kim Bok Joo ainda peca em algumas questões. Por exemplo, quando ela e o namorado começam a querer regular a vida um do outro. É bem comum em todos os relacionamentos, e ainda mais comum nas séries. É até considerado romântico, mas vamos parar com isso, por favor. Mesmo que você esteja em um relacionamento, a outra pessoa não é um objeto de posse que você pode simplesmente controlar, ela é um ser humano completo, com toda uma bagagem de vida e uma personalidade diferente da sua. Relacionamentos são feitos quando vocês aprendem a compreender um ao outro e se respeitarem como são. Tentar prender e controlar o outro só vai sufocá-lo e fazê-lo se cansar dessa relação onde não é possível ser ele mesmo.

 

E é isso, por enquanto. Pretendo falar sobre outros doramas que for assistindo (conforme tiver tempo), e realmente recomendo que assistam, porque são muito bons! ;)

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22/01/2017 Aos melhores 10 anos da minha vida

Meu bebê partiu no dia 03 de janeiro de 2017, às 7h da manhã. Virou estrelinha, como dizem por aí. Mas já adianto que este não é um post triste, porque gosto muito mais das coisas que me deixam feliz.

Durante 10 anos, o Toddy foi, sem qualquer exagero, a razão da minha existência. Se eu arrumei emprego e decidi estudar pra melhorar de vida, foi por causa dele. Porque eu precisava comprar ração, pagar vacina, dar remédio, e jamais aceitei para ele qualquer coisa menos do que o melhor. Durante 10 anos, eu fui a família dele, e ele foi a minha. Eu comecei e terminei namoros, mudei de casa várias vezes, casei e me separei, mas a constante na minha vida era ele, e a constante na vida dele era eu. Desses 10 anos, nos seis últimos, não houve uma única noite que não tenhamos dormido juntos, na mesma cama (às vezes tão juntinhos, que eu tinha medo de rolar na cama e passar por cima dele – adquiri o hábito de dormir igual uma múmia por causa disso XD).

Ele era inteligente, carinhoso, paciente, temperamental, cheio de personalidade (mas muito compreensivo), cheio de pequenas manias, e tão educado que deixava as pessoas impressionadas. O Toddy fez com que meus últimos 10 anos fossem os melhores da minha vida. Ele me tirou de depressão, me amou mais do que eu seria capaz de amar a mim mesma, e me fez absolutamente feliz durante todo esse tempo.

Por isso, e por vários outros motivos, eu não chorei quando ele morreu. Meu bebê partiu em paz, em casa. Fiz questão de ficar ao lado dele o tempo todo, durante cada segundo, para que ele se sentisse, em seus últimos momentos, seguro e amado como eu me senti durante 10 anos. E foi assim que ele partiu.

Se eu sinto saudade? Sinto sim, claro. Mas não é uma saudade triste. O que ele plantou aqui dentro foi muito maior e muito melhor do que qualquer sentimento ruim que possa querer se aproximar. Às vezes, nos pequenos detalhes do dia-a-dia, surge a lembrança dele. Quando a janela faz barulho com o vento, e me lembro do quanto ele tinha medo de qualquer coisa que fizesse barulho dentro de casa, eu sorrio. Quando saio do banho e vejo o tapetinho do banheiro vazio, sem aquela coisinha preta enroscada ali me esperando, também sorrio. Quando volto pra casa e não ouço o latidinho dele de felicidade para me receber, também sorrio.

Sorrio o tempo todo que me lembro dele, porque ele me fez feliz demais. Ficar triste com a partida dele seria como desperdiçar todo esse tempo maravilhoso que vivemos juntos, e do qual eu não me arrependo nem um segundo. Viveria tudo de novo, cada momento, cada sapato estragado quando ele ainda era bebê, cada choro de madrugada pra eu ajudar ele a subir na cama, cada latido repentino que me davam sustos terríveis, cada centavo gasto com brinquedos, veterinário, remédios. Tudo. Porque tudo valeu a pena.

Foram os melhores 10 anos da minha vida. =)

E agora, preciso focar no outro Preto, que está mais carente do que nunca, sofrendo demais com a morte do irmão, e precisa que eu faça a vida dele tão feliz quanto o Toddy fez a minha. ;)

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